2.3.16

Abandonar
Partir
Dormir

Chorar
Rejeitar
Desconhecer

Falta-me o ar nos pulmões
Sinto-me pesada, sonolenta
Sem reacção
Sem vontade de me dar, de sentir, de sorrir

Durmo, ouço a tua respiração ao meu lado
Um corpo estranho na cama
E todas as palavras a empurrarem-nos para longe

Longe, sempre para mais longe

Quero voltar, voltar onde
onde quero, 
sem saber se ainda encontro o caminho

5.10.15

4 de Outubro

De todas as vezes que votei, sempre me emocionei a colocar a cruz no boletim.
Feliz por este direito, feliz por o cumprir, esperançosa pelo resultado.
De todas as vezes, desde o dia em que me fui recensear no dia do meu 18º aniversário, nunca falhei. Mesmo quando tive de andar a juntar documentos e certidões para votar antecipadamente, num qualquer gabinete da Câmara Municipal de Cascais, em que já me reconheciam de todas as vezes que tinha recorrido ao voto antecipado.

Ontem, ao ver os resultados senti-me deprimida, apesar da subida louvável do bloco.
Vão ser mais quatro anos deste terror. E eu que tinha esperança que isto fosse mudar um pouco que fosse. Que a ciência  fosse desenterrada, que um novo gás fosse dado ao SNS, que os reformados tivessem um fim de vida digno e que os mais jovens deixassem de partir aos 100 mil por ano para outros lados.

Em que é que os portugueses estavam a pensar quando decidiram reeleger os mesmos, que tanta destruição causaram ao país e às nossas vidas, nos últimos 4 anos?
e a Abstenção...? Quem são estas pessoas que não valorizam o direito de votar e que perante a carência eminente de democracia não se pronunciam?

Hoje acordei num país mais podre, mais pobre, mais cinzento, sem forças para celebrar a república.

21.5.15

Take care

Sempre que oiço a Take Care dos Beach House, lembro-me do filme La vie d'Adele. E emociono-me.

Talvez pela vida não ser fácil para aquela personagem, a viver fora do contexto em que cresceu. Sem perceber o que sentia. De a vida correr, elas crescerem e observarmos aquele viver solitário da vida adulta sem companhia, a seguir a uma paixão trucidada. Aquele vazio que nunca seria preenchido da mesma maneira por outra pessoa. As vidas a fugirem, separadas. Em observação lenta.

take care ou cuidar é das coisas mais bonitas que o amor traz uns aos outros. E é isso que desaparece quando uma ligação se rompe. Mais do que deixar de ser amado, a solidão reside no desleixo do não cuidar, do não querer saber mais, de deixar de fazer diferença estar bem ou estar mal e na confrontação interna que isso comporta. E também no deixar de ter de quem cuidar.

4.5.15

The way I feel is the way I write

Sometimes there's things a man cannot know
(...)
I will stay with you tonight
Hold you close 'til the morning light
In the morning watch a new day rise
We'll do whatever just to stay alive
(...)
Well the way I feel is the way I write
It isn't like the thoughts of the man who lies
There is a truth and it's on our side
Dawn is coming 
Open your eyes
Look into the sun as the new days rise

27.4.15

Mais menos

Darling, there’s a place for us, can we go, before I turn to dust?

A Joanna Newsom revisitou-me hoje, depois de uns longos anos. Logo depois da Feist.


17.4.15

Quando

Estou aqui para ajudar a combater e ultrapassar todos os problemas. A refletir, a projectar todos os cenários possíveis. Mas quando tudo se encaminhar e se resolver, deixa-me partir e descansar um pouco. Estou tão esgotada.....

19.2.15

Patagónia Express

O skyscanner crasha no meu computador. 
Deve achar que é a única maneira de me manter quieta. Logo eu... que passo a vida a ver o preço de viagens para o outro lado do mundo, mas sempre no mesmo sítio.

Hoje tentei pesquisar a sério, pela primeira vez, os preços de viagens para a América do Sul. E o skyscanner crashou.

A patagónia está cada vez mais adormecida em mim. Se calhar passei demasiado tempo a sonhar.

9.12.14

Boyhood

Um balde de lucidez.
Um filme que me deixou o fim de semana inteiro a pensar nele. 
Como que a rebobinar os sentimentos de toda uma infância. Sem momentos de raiva, ou de tristeza profunda. Só de lucidez, de observação interior. Um desfile das banalidades do dia a dia, que me marcaram para sempre. E de repende todas as gavetas ficaram abertas.
Passei os dois dias do fim de semana a fechá-las. Algumas ainda sem resolução. Com música de fundo, para relativizar.

13.11.14

Invernos

O Inverno traz com ele todos os clichés de sempre da minha vida.
Os dias pequenos, a desmotivação, a falta de luz e de ar livre. O frio opressor.

Todos os Invernos sentia que queria hibernar até aos primeiros raios de sol da Primavera.
Houve um Inverno que materializou a transição de adolescência para o ser adulto. O Inverno de 2005 foi um mix: as minhas aulas na faculdade acabavam já de noite e ou ia para casa e apanhava os comboios nocturnos todos, cheios de pessoas cansadas como eu, eu simplesmente deixava-me entranhar na noite de Lisboa que tinha começado a descobrir. Mas a quase instintiva leve depressão estava sempre lá: com mais ou menos música, mais ou menos bares, mais ou menos comboios.

Já o Inverno de 2009 foi um recomeço da minha vida, essa sim de adulta em todas as suas vertentes da independência, depois do fim de um amor que achava que era mesmo aquele. Foi um longo inverno, ultrapassado com muitas noites  a dançar até de manhã (coisa que me deixa sempre em transe e feliz enquanto dura), infelizmente com algum (ou demasiado álcool) e muita solidão. Só não queria acordar cedo de manhã e sentir o vazio da vida adulta sozinha.  Felizmente  na noite em que o DJ do Jamaica  me veio tentar salvar de uns avanços de uns gajos, eu percebi que já chegava... (até um desconhecido já me conhecia de tanto me desgraçar ali). Foi também o meu primeiro inverno de doutoramento e por isso tinha dúvidas existenciais q.b. para me entreter. Até iniciei os Jantares do Mundo, uns jantares entre amigos, para combater a depressão, mas a primeira edição foi tão hardcore que o segundo jantar só se deu lá para a Primavera (ainda hoje continuamos com dificuldade em combinar, não por as edições se prolongarem noite dentro, mas porque o pessoal vai ficando velho e fechando o círculo à sua volta).

A surpresa mesmo foi quando o Inverno de 2011 foi passado na Austrália e aí a minha vida mudou. Não houve Inverno para mim, nem um bocadinho de tristeza conseguiu apoderar-se do meu corpo quente no outro hemisfério. Os mergulhos, o sol quente, a vida em contra-onda da vida na Europa e passar 2 meses sozinha a viajar foi das melhores coisas que me podia ter acontecido. Não só por ter saltado o Inverno, mas por me ter capacitado a mudar as coisas que não quero e tornar possíveis as coisas que quero. Tudo isso, sempre com muita música a acompanhar as mudanças.

Talvez por tudo isto, sempre que os dias escurecem e ainda estou a trabalhar, as músicas de house e de disco, enchem os meus headphones para suportar o resto das horas que falta para acabar o dia de trabalho. E os meus invernos todos passam em rewind.
Fica sempre a questão: Será que quero alguma dessa melancolia de volta?

20.10.14

Ai gódi


Quando o ponto alto do nosso dia de trabalho é fazer "cesto" no caixote do lixo do outro lado do gabinete, com a folha que acabámos de riscar e amarrotar, cheia das teorias inconclusivas. Horay!

(que triste... estes tempos de partir pedra com a cabeça desesperam-me... só quero acabar este doutoramento, para depois.... ser inundada pela ansiedade do vazio. Outra vez)

Vamos a isso. 1-0

30.9.14

A nossa islândia

Revejo as nossas fotos. Quando estava tudo no início e ainda não sabíamos o que nos esperava, o que esperavamos um do outro, onde chegaríamos e que hoje ainda aqui estaríamos.

As nossas primeiras fotos foram tiradas num fim de semana fora de Lisboa, quase às escondidas, e está lá tudo o que ainda hoje temos: amor, cumplicidade, e a imensidão do mar, com a ténue linha do horizonte como cenário de fundo. As assombrosas nuvens e os raios de sol a trespassarem-nas na ofegante busca da refracção.

Todas elas, em analogias ou não, se repetem todos os dias na nossa vida. Só o mar, apesar de não o vermos sempre, está todos os dias em pensamento. Trilhamos juntos um caminho. Quem diria que aquela paisagem crua das falésias do Oeste, seria agora o pano de fundo do nosso próximo sonho. Que ali, onde tudo foi impulsionado, é a terra que dará forma à nossa futura casa.

Esse horizonte de fundo, onde tudo é natureza, transmite-me calma, como todos os dias que passámos na Islândia.  Onde a natureza nos rodeava e envolvia num leve sonho eterno. De que este mundo é muito mais do que o nosso dia-a-dia citadino no qual, não poucas vezes, perdemos a razão desta vida. 

No leve sonho eterno, que no fundo os nossos pés estão assentes numa terra viva, em contínua transformação, capaz de adquirir formas inimagináveis onde não é o homem que dita a lei. Essa é verdadeira liberdade.

23.9.14

Farta que me chamem a geração mais qualificada de sempre, para logo a seguir dizerem que não há lugar para mim.
Farta que não hajam saídas.
Farta da conversa da internacionalização da carreira quando acumulo graus académicos para fugir ao desemprego.
Farta da conversa da vitimização desta geração, do empreendedorismo como saída e das zonas de conforto como lição.
Farta que todos se pronunciem sobre nós como números, para servir estatísticas que já ninguém quer interpretar.
Farta de toda a comunicação negativa, de reclamarmos muito, de termos pouca vontade de emigrar, de qual ser o mal de ser precário, quando há tantos desempregados.
Farta de banalizar as despedidas dos que apenas voltam no Verão, dos que partem sem saber se é a última vez que beijam os avós.
Farta da abstração do que é importante para cada um de nós na vida, sem uma estratégia, sem uma perspetiva.
Farta de ouvir que é melhor ter este emprego de merda do que não ter nada.

E o Futuro? De que nos servirá acumular empregos de merda, part-times de exploração e estágios não remunerados para experiência, se no fim, sim, no fim, desta década, seremos homens e mulheres de meia idade, sem nenhuma experiência profissional que valha, que nos valha, não, para arranjar outro emprego de merda, mas para sentirmos que a vida valeu para alguma coisa.

Farta de ouvir discursos de empowerment, de ler blogues de “eu também mudei de vida e sou muito feliz, objectivo alcançado, não contem comigo para mais nada”, de ver fotos luminosas do outro lado do mundo se eu estou aqui, a viver com o pouco que me pagam, sem poder arriscar outra vida, sim, porque essa é só para quem tem rede e tem um lugar para voltar quando tudo voltar a correr mal.
Estou aqui. Farta.

Farta de ouvir o mesmo. Farta de ir aos mesmos protestos, de ler mais um texto inflamado, de assistir a mais uma ridícula disputa entre líderes do PS e a assistir à perpetuação do PSD e os seus lambe-botas a tentarem limpar a merda do BES & companhia.

Estou aqui neste país em que saio á rua e só vejo velhos. Saio à rua e só vejo pessoas com olheiras, apressadas e calvas na sua vida. Nas ruas invadidas de turistas. E imagino como seria ainda poder viajar sem restrições, como qualquer jovem sonhou.
Não quero sonhar, pois os sonhos vão se embora e fica a realidade. A mesma de sempre, que já ninguém quer encarar ou falar.

Quero transformar. Quero que a minha, a nossa vida tenha significado, para além do que estudámos ou trabalhamos. Quero que possamos sentir-nos bem com esta vida, com este país. Não pela via individual do próprio ego. Não pela adaptação à realidade mas sim pela mudança. E Mudança só se faz com reciclagem dos restos, com sinergias novas, e forças transversais.

Somos muitos os descontentes. Ainda teremos força para acreditar e mudar?

21.7.14

Metade de mim é maresia

O mar que me abre horizontes, e esta cidade que mos tira.

Preciso de mar. De o ver todos os dias, sentir o vento térmico que traz o frio da noite junto ao mar. Saber que ele está lá. Todos os dias. Para me tirar os pés da Terra sempre da mesma maneira. Pelo imaginário.
Dentro da cidade, sinto-me murcha, desanimada, desperdiçada na normalidade dos dias. Racional. Demais.

Às vezes tenho saudades de viver em Cascais. O mar dá-me mais do que um mero conforto. O mar volta a pôr o ênfase todo na fuga. No partir sem querer voltar. No não querer ficar só em terra. 
A cidade faz-me sentir confortável com esta vida. Não abre horizontes, apenas mantém a tónica no conforto, sem risco. E depois vem esta inquietude. A vontade de mastigar flores e sentir o sal na boca. Areia nos pés e as mãos a esfregarem-se na vegetação rasteira para ficar com o seu cheiro.

Como a Sophia de Mello Breyner Andersen me percebe. Cada vez que folheio a sua antologia enamoro-me outra e outra vez. É o meu livro de sempre e para sempre.

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim. 
A tua beleza aumenta quando estamos sós 
E tão fundo intimamente a tua voz 
Segue o mais secreto bailar do meu sonho. 
Que momentos há em que suponho 
Seres um milagre criado só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andersen

3.6.14

Dance Dance Dance

Gosto de trabalhar em investigação.
É desafiante, continuamente. 
Mas muitas vezes fico bloqueada e preciso de espairecer. Sol, conversas, ver as árvores mexer, sonhar com uns mergulhos na água fria do mar que tanto adoro e fazem-me renascer. Sempre.

É nestas alturas que percebo (e tenho saudades) a necessidade das minhas pausas para dançar durante os longos períodos de estudo durante a faculdade. Eram  10 minutos só para abanar o corpo e pôr a música bem alto a vibrar dentro do meu corpo. Descarga energética natural. E depois, voltar a sentar cheia de boas vibrações e ainda com a respiração ofegante de tanto saltar. E estudar.

Hoje não posso fazer isso aqui no gabinete. Quando estou sozinha ainda dá para cantar um bocadinho e abanar os braços. Mas, ainda assim, os dias nunca são tão produtivos quanto eu queria.

21.5.14

Estamos todos tão velhos

Há coisas na vida difíceis de digerir.
A mim essas coisas sempre bateram na rejeição e no afastamento. E sempre nas injustiças.
Vivo mal com isso.

Ontem estava a rever umas fotos da campanha olímpica. Vejo o T., a F., o M., todos insistiram em ir-me buscar ao aeroporto quando vim da Austrália e a levar-me ao aeroporto quando fui para os jogos. Aparecem todos sorridentes e eu envergonhada.
Hoje estão muito longe de mim e pouco sabem ou querem saber da minha vida. As vidas juntam-se e afastam-se. Se nos zangámos? Não. Apenas as opções de vida foram diferentes e o político foi confundido com o pessoal. E nem todos conseguimos viver com a tolerância necessária para separar as coisas. Não quero fazer nenhuma análise simplista, mas no fundo vivo mal com isso. Disse-o ao T. antes deixarmos de viver juntos. E desde aí fiquei mais calma, porque sinto que lhe disse o que pensava, abri-lhe o meu coração, mesmo mostrando todas as fragilidades. A resposta continuou no silêncio. É uma opção, e passei a viver com isso.

De outro lado e muito mais antigo na minha vida está o D. Sempre que leio Álvaro de Campos, sempre que vejo luzes a percorrer o tecto na escuridão do quarto, sempre que me lembro de S. Pedro de Moel, da Joni Mitchel, do método dos quatro pontos (não fosse física experimental II ter sido a nosso encontro), e tantas outras coisas, levam-me sempre a ele. Na verdade com ele é que nunca compreendi o afastamento. Ligo-lhe, envio-lhe mails, ou sms de tempos a tempos, insistindo sempre num convite que nunca chega a ter resposta. E toda a rejeição e o desencontro de vontades dói. Disse-lhe isso as primeiras vezes que se começou a afastar, mas sinceramente sinto que lhe perdi o rumo à razão. Sei que está bem, e de longe parece feliz. (Na verdade penso que ele se revê demasiado no Álvaro de Campos para algum dia ser feliz na sua condição. Para o D. haverá sempre coisas mais fantásticas a fazer no outro lado do mundo).

O pior é que as negas não acabam aqui. A I. está sempre muito atarefada, o ano passado conseguimos encontrar-mo-nos 1 vez. Os três amigos dos jantares do mundo também andam todos com a rédea curta e jantar está quieto. Com tantas negas até parece que perguntar se querer beber um copo de vez em quando, é despropositado. Não há paciência.

Estamos todos tão velhos.

Todos se fecham nos seus círculos, cada vez mais familiares, e os amigos solitários/só de um lado, vão se perdendo. Porquê? Será que deixamos de ter vontade de estar juntos? Porque associamos as amizades antigas a outras fases, a outras pessoas que já não somos? Porque perdemos a identificação? Porque temos medo? Será que já não temos (ou não queremos ter) tempo a sós? Que passamos a ter e a ser apêndices dos nossos pares, sem separação do que éramos e do que dávamos importância?

Ou simplesmente temos vergonha do que somos hoje em dia, ao que ambicionámos que íamos ser ou fazer? Temos medo de ser julgados?

Enfim. Tão novos e já tão velhos. 
Fuck it. Life goes on mas eu conheço-me. Vou continuar a fazer os mesmos erros de sempre. Convidar, ficar sem resposta, e desiludir-me com isso.

9.5.14

reencontros

Estou vidrada nos Dark Dark Dark. 
Na verdade nunca deixei de estar. Sempre que os meto a tocar há um ano inteiro a vir contra mim de embate. As mudanças todas, o amor a renascer dentro de mim, a distância de tudo, as incertezas todas, uma campanha olímpica, ter que ser forte e continuar. Levar tudo ao extremo e por fim poder descansar.

Todos os momentos tinham uma música associada.

Re-ouço-os e os pulmões fecham-se, a garganta corta-se, os olhos vidram-se. É assim quando vivemos música e ela está a ser carregada no nosso coração sempre. E sempre que os ouço que quero escrever. porque não?

Estas músicas fazem-me sofrer. Não sei bem porquê, ou se é apenas um lugar comum este não saber.
Sei que me fazem tocar em algum ponto das separações. E toda as gavetas da memória que contêm tristeza, abrem-se e vêm ao seu momento existencial, no meu coração, na minha cabeça. Todas as separações da minha vida, todos os sentimentos de abandono, rejeição e solidão. O meu quarto em casa da minha mãe, o meu palco favorito para todas as tristezas de tempos idos.

Estou a encontrar o caminho de volta com o meu pai. Devagarinho, como dois desconhecidos que começam a gostar de se dar. De todas as vezes sinto que não sou capaz de esquecer, de compreender o que está para trás. Sinto a aproximação envergonhada e quero-a rejeitar. Mas não posso, não quero. Porque no fim de tudo o que eu queria é que as re-aproximações nunca tivessem que acontecer, bastava nunca ter ido para segundo plano, segunda vida, segundo interesse. 
Crescemos. Todos crescemos. Eu continuo a chorar no escuro quando ouço música que me relembra tudo isso. Nas relações de amor, a dor é igual, mas acaba sempre por passar e ser relativizada, pois poderá sempre existir alguém que venha depois, um dia, tudo muda, e esse sofrimento fica para trás bem longe. Mas a seguir a um pai não vem outro. Fica apenas a quebra, a mudança de vida e sem a promessa de um novo amor de pai e companheirismo como o que havia antes.

Em tantas coisas sinto-me ainda tão criança que dificilmente percebo como poderia ser mãe algum dia. Será que só o poderei ser depois de resolver tudo o que está para trás?

Acho que trato a L. como se fosse minha filha. Dou-lhe carinho, adoro ensiná-la também tudo o que me ensinaram e me fez feliz. E mostrar-lhe que ela e eu somos a família juntamente com o pai, que tem espaço para gostar das duas até ao infinito. Quero ser aquilo que não foram para mim. E quero que o R. continue a ser o pai que sempre foi, como eu não senti que o meu tivesse sido a partir de um determinado momento.

E com isto acho que estou no caminho para me encontrar, de novo com o meu pai.

De resto, chega de tristezas. Arruma-se tudo de novo até uma próxima música.

23.4.14

Estou farta de trabalhar sozinha.

Não ter com quem debater ideias para desbloquear, para tentar novas formas de aproximação. Nenhuma descoberta foi feita algum dia sem debate de ideias, sem troca, sem interacção.

Passar dias inteiros, eu e um mega ecrã que, irremediavelmente acaba em exploração culinária quando estou entediada.

Durante a minha campanha olímpica ganhei communication, social and team skills. Penso sempre que um dia me vão ser úteis. Mas esta vida profissional solitária não precisa de nada disso. Só de muito trabalho e focus.
Tento que  a música ajude a continuar um fio de pensamento de trabalho, mas há dias que nem isso.
E depois os raios de sol a entrarem pela janela à tarde, fazem-me sonhar. Pela vida de ar livre e natureza que tive durante 2 anos em que a vela era a minha vida.

Nessa altura sentia falta de estímulo intelectual.

Agora, mesmo correndo ao fim da tarde junto ao rio (e que bem que sabe aquele vento de fim de tarde, a respiração, o desafio, o não pensar em mais nada senão em conseguir correr cada vez mais em menos tempo, e a sensação de cansaço no corpo no fim do dia) não é suficiente para me deixar confortável na cadeira o resto do dia.
Porque quero interacção, evolução, reciprocidade de conhecimento. Sentir que o que eu construo, penso e quero testar (é isso a investigação não?) serve para alguma coisa, no fim.

E agora cada vez mais tenho o chamamento de uma vida na natureza, com cheiro dos montes pela manhã (a minha eterna Carrapateira sempre presente, nunca esquecida) e preocupações ecológicas.

Não quero virar nenhuma hippie, em parte porque sei que isso não resolve nada no mundo, apenas a minha felicidade individual.. e até aí tenho dúvidas.

Quero não viver rodeada de carros e por onde olhos só vejo edifícios. Quero andar de bicicleta, correr e percorrer caminhos com verde, sem buzinas, com o mar como pano de fundo. Assim um pouco como eu me sentia na minha infância, e o cheiro do mar que reconheço sempre que vou a Cascais.

ainda não percebi muito bem o que quero. Sei que quero mais natureza, pura verdadeira, desconexão dos problemas da cidade e das pessoas e dos seus stress que só existem porque não há escape possível na cidade. Mas também não quero o isolamento, a condenação. Não quero viver nos subúrbios numa casa maior, mas em que dependa à mesma da vida da cidade. Para isso ao menos vivo no centro e contínuo a fazer a minha vida do dia-a-dia com tempo.

Acho, no fundo, que quero consistência e significado. Para que a vida não passe em vão. Com tantos planos mas todos por concretizar.

27.2.14

dormente
a dormir
amorfa
cinzenta
calada
deambulo.

fechamento
conchinha
prostrada
calma
a minha pele absorve a música
sob a luz enviesada
durmo.

dormir cura tudo.

espero com muita força que sim.


11.2.14

Change

Faz 7 anos que a minha vida mudou para melhor.

Que gradualmente comecei a sair o ciclo solitário em que vivia e ousei sonhar mais e concretizar ainda mais.
7 anos que este blog progressivamente deixou de fazer sentido no objectivo primeiro com que foi criado.
7 anos que comecei uma trajectória de desenclausuramento e aproximação de outras pessoas, do amor, das perspectivas, da vida.
7 anos.

É bom, relembrarmos as boas opções que vamos tomando na nossa vida. E que fazem sentido.
E que eu mudei. Ainda bem.

5.2.14

Ouvir música que nos faz feliz é meio caminho andado para nos sentirmos sem nuvens na cabeça.

Isso e ter os algoritmos genéticos a funcionar, depois de mais de um mês à pancada.

yeahhhh.

É tão bom ver o horizonte à nossa frente, em vez das sistemáticas nuvens e nevoeiros, tempestades e ondas que nos fazem dúvidar se conseguimos chegar ao fim.

Bright Bright Bright


28.1.14

Parece mesmo que, o que no início disse por brincadeira, se anda a cumprir. 
Só vou de férias para ilhas.
E adoro.

Se nos dois últimos anos foi Açores e São Tomé e Príncipe, este ano assemelha-se Islândia.

Estou ansiosa.
 só quero partir....!

22.1.14

"E eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer que gosto dos teus sapatos e sentar-me nos degraus enquanto tu tomas banho e massajar o teu pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me contigo no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas e carregar as tuas caixas e rir da tua paranóia e dar-te cassetes que tu não ouves e ver filmes óptimos ver filmes horríveis e queixar-me da rádio e tirar-te fotografias a dormir e levantar-me para te ir buscar café e brioches e folhados e ir ao Florent beber café à meia-noite e tu a roubares-me os cigarros e a nunca conseguir achar sequer um fósforo e falar-te sobre o programa da televisão que vi na noite anterior e levar-te ao oftalmologista e não rir das tuas piadas e querer-te de manhã mas deixar-te dormir um bocado e beijar-te as costas e tocar na tua pele e dizer quanto gosto do teu cabelo dos teus olhos dos teus lábios do teu pescoço dos teus peitos do teu rabo do teu
e sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até tuchegares a casa e preocupar-me quando estás atrasada e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpa quando estou errado e ficar feliz quando me desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e o outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssima e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegrar-me quando te ris e não compreender porque é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar porque é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vezmas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem eu sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum do / esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti."

Falta, Sarah Kane, Teatro Completo, tradução de Pedro Marques, Campo das Letras
(encontrado transcrito aqui)

13.1.14

Emociono me sempre com gestos de bondade, companheirismo, justiça e solidariedade. 
De todas as vezes pergunto me porquê, porque os meus olhos ficam húmidos e fico sem voz.
Adoro histórias dos nossos antepassados. Ouvir os relatos dos meus avós, mais ilustrados ou menos inventados, não interessa, ouvi-los a falar abertamente, a sentirem que são detentores de verdades que nunca poderei comprovar. Numa altura em que cada vez mais tudo deixa de lhes ser familiar, o mundo avança e eles ficam cada vez mais para trás.
Adoro ler. Já li muito mais. Talvez por isso me emociono quando hoje encontro bons livros e fico colada à sua estória. E me transporto de novo para esse mundo abstrato onde me apetece voltar a escrever, emocionar-me, transpor-me, e levar pessoas comigo.
Adorei ler este Afonso Cruz. O sua estória faz se dos pormenores dos momentos e das personalidades dos personagens. As teorias desenvolvidas são o nosso quotidiano e o reflexo da maneira como olhamos para o nosso presente. Pela primeira vez senti-me identificada numa mesma geração, sem clichés. Senti a partilha dos pequenos pormenores de felicidade e da insatisfação quase omnipresente de alguns de nós. A noção que nada é absoluto, a procura incessante de uma raiz, o saltitar de lugar em lugar sem nunca sabermos se ou quando voltamos. Um refugio, um lava loiças. Um lava loiças.

17.12.13

Sempre quis.

Depois deixei de querer, quase forçada. Em prol da independência.

Habituei-me a ser só eu. E ter sempre o meu espaço, a minha casa onde voltava sempre.
Onde acordava sozinha e preparava-me o pequeno almoço.
Saía de manhã com o sol a brilhar, apertava o casaco, saía em busca do café matinal, das compras de mercearia, de frescos para cozinhar belas refeições que só eu experimentava. Dos passeios solitários com a máquina fotográfica analógica e uma paragem por algum miradouro.

Onde às vezes chegava tarde, cansada e só queria que alguém me fizesse uma jantarinho. Mas não havia ninguém e lá comia os meus noodles emergency case.

Onde me arranjava antes de sair para me encontrar contigo.
Onde dormimos a primeira vez juntos, muito separados, com medo de nos tocarmos.

Onde acordámos e lê-mos Vinicius Moraes. Li-te o Operário em Construção e vibrámos nos sorrisos escondidos quando percebemos o que nos estava acontecer.

Onde nos encontrámos, encontramos e encontraremos.

E agora depois de já vivermos alternadamente na casa um do outro, vamos viver juntos.

Não há casa solitária onde voltar, para me deitar nua em cima da cama, depois do banho. momentos meus que só fazia quando estava sozinha.

Vou passar a acordar sempre na mesma cama. Contigo ao lado.

Não há mais a minha casa. Ou a tua casa.
Só a nossa.

É estranho. Sempre tive várias casas. mudei muito de casa. Tinha sempre um escape para onde ir sempre que quisesse. Sempre houve alguma mudança no horizonte.

E agora.. não sei.
Vou me mudar e viver com a pessoa de que gosto. sem pensar que é mais uma casa temporária.
Poderá ser.

Em algum momento vou ter saudades do que eu era, do que era a minha casa, o meu espaço.
Talvez. Mas na realidade nós já vivemos na nossa casa. aquela que construímos juntos, todos os dias.
E dessa nós sabemos cuidar.

16.12.13

Os meus sentimentos não são um drama.
são só isso.
sentimentos.

Não aceito partir sem falar. e por isso falei.
agora fecho-me de novo.

Sou transparente. mostro me frágil, aliás como sempre fui.
Não tem mal.
Só não gosto de levar pancada.
Pior. e não dizer nada.

limpo os estilhaços.
aceito.
e caminho em frente.


9.12.13

Slow travel

Estou com aquela sensação de quando acaba uma viagem que estava a planear há tanto tempo... começo logo a delinear a próxima.

Férias de mochila às costas já não as tinha desde os Açores, no verão passado, e no estrangeiro, desde a Austrália no final de 2011... Agora foi São Tomé e Príncipe e gostei e revivi o feeling das férias lomge do mundo, do computador, dos telefones, com ritmos calmos e simples.

Para o ano até Setembro está dificil, pois vou tentar o primeiro apuramento para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016, em Setembro em Santander.. por isso, na melhor das hipóteses, daqui a um ano parto outra vez para uma viagem longínqua com água quente, muito snorkelling, trekking de tirar a respiração e comida barata e deliciosa... é tudo o que quero :)

pelo meio back to routine, ter avanços significativos no doutoramento e conseguir o apuramento para os JO também não era mal pensado...

isto parece-se com a antecipação das minhas resoluções de Ano Novo :)

23.7.13

Vila

Acho que vou ter saudades desta casa.

Já vivi em tantos sítios diferentes. E nenhum deles achei que ia ficar para sempre.
Agora também não.

Quando vim para esta casa, não me apaixonei pelo sitio nem por ela, mas com o tempo a passar e esta casa a ser o meu recanto, o meu abrigo para as confusões dos treinos, dos campeonatos, de toda a pressão, acabou por ser um amor dentro de mim. Uma casa em que me senti bem, em que cresci mais um bocadinho, que usei muito. Que tive a liberdade de fazer o que queria, fazer festas e jantares bons e quentes, trazer os meus amigos para o meu espaço. Passei também muitos dias sozinha a ouvir o eco nas paredes, a cozinhar e a trabalhar sempre sozinha, quase em retiro espiritual não voluntário.

Mas agora, já não a sinto minha, nem nossa. Agora é um espaço em decadência que já não é meu nem teu.
Já não nos rimos com as particularidades de cada um, já só tentamos existir no consenso forçado buscando a tolerância que deixou de existir, tentando não incomodar o outro, mas incomodando tanto.

Quero morar sozinha. Acabou-se o tempo de partilhar casa. Já não partilhamos a vida nem o humor.
É um salto grande, e arriscado, mas foi o que sempre sonhei. Uma casinha minha no centro da cidade.
Eu adulta e independente com uma casinha alugada. É o que preciso. terraço, vista, quintal? espero conseguir algo melhor que uma cave escura, mas mudar está nas minhas mãos.

Só depois virá o tempo de viver a dois com espaços sobrepostos.

Quero a minha casa, mas vou ter saudades desta e do que vivemos aqui.

Só falta mesmo contar-te que eu e tu aqui, vai passar a ser tu aqui ou ninguém aqui.

16.1.13

Desaparecer

Fica comigo no quarto à noite.
Com as luzes apagadas a música entrará dentro de nós e as perguntas, essas que fazemos repetidamente todos os dias, ficarão respondidas. Deixa-me enroscar-me em ti e sentir-te o coração a bater no meu ouvido, calmo e grande, cheio de nós e do que somos um para o outro e na vida um do outro.
Enchemos o vazio do ar, mas queremos mais. Queremos fazer a cama todos os dias, e limpar o pó que existe escondido nos cantos da casa de cada um.

O calor que a tua pele emana tranquiliza-me o sono, mas de manhã, ensombrada pela revolta do acordar, não te consigo beber o suficiente para superar mais um dia, longo, afastada de ti.
Deixa-me trazer uma mão no teu cabelo e o teu terno beijo.

21.11.12

Pendular

Comboio. Adoro comboios. Viajar de comboio. Todo um país repleto de estórias, casas, paisagens, fábricas, história. Preenche-me. Quero parar. Quero ficar naquele apeadeiro longe de tudo, descobrir os recantos, as pessoas. Caminhar naquele passadiço junto ao mar durante quilómetros e quilómetros.

[Faz 10 anos que reparei naquele passadiço junto ao mar quase a chegar ao Porto. Há 10 anos que anseio levar-te (e não te conhecia) para aquela praia e pedalar ou andar, levar piquenique e redescobrir Portugal.]

Estou há 2 meses sem rumo, mas com âncora. Ocupo-me, quero estar sempre perto. Ir para longe é cada vez mais estranho e distante.

(Luzes alternadas, interrompidas pela escuridão. Ou será o contrário.)

Vem comigo..
Não quero ficar parada, mas não quero partir sozinha. Tiraste-me a solidão, acompanhas-me a cada lugar que vou, só que com a urgência de voltar. Sempre. 
Quero continuar a ter a mesma vontade de inovar, descobrir, saborear, sem olhar para trás ou muito para a frente. Foi isso que nos trouxe até aqui e pelo qual nos apaixonámos. Não nos deixemos morrer pelo amor que nos mantém vivos.

Meu amor, (deste-me outro significado a meu amor.) todos os dias me perco em ti, todos os dias me encontro em nós. Todos os dias a música me deixa prostrada em nós, e todos os dias renasço quando te vejo ao acordar. Os teus contornos por entre a brancura do edredon. Não quero sair desta nuvem branca que me envolve e alimenta.

Meu amor calmo, envolve-me, remexe-me, desperta-me. Só não me deixes parada.

13.8.12

Acabou

Acabou.
Viajo por entre os campos do sul. Tantas vezes passei aqui a caminhar para um sonho, ou a regressar dele. Muitos dias passaram desde que tudo começou, e todos eram em contagem decrescente para este momento.

Foram muitas as músicas que me iam acompanhando nas viagens, nas paisagens, no mar quando o ambiente era saudável, ou no quarto á noite, quando queria limpar tudo o que ouvira, tudo o que correra mal.

Gostava de ir correr. Era nesse momento em que, com o som da respiração e do coração a bater e os headphones postos, acreditava que não havia limites para o nosso esforço e que iríamos conseguir. Era também a correr que a melancolia vinha e que me apercebia que tudo isto é efémero.

Sempre. Voltar. Partir. Voltar. Partir. E a certa altura penso que me perdi algures no meio. Parecia fora de fase com toda a gente. Apesar do apoio sentia-me sozinha, numa vida que eu não conseguia explicar e em que também não conseguia trazer ninguém para ela.

A Austrália fez-me bem. Foi uma lufada de ar fresco na minha vida. Viver 2 meses noutro país libertou-me. E que bom que foi, objectivo cumprido, férias merecidas, viajar por lugares inabitados e na maior imensidão que a Terra nos pode mostrar.
Senti-me verdadeiramente livre. Já não Viajava há tanto tempo! Superei os medos, arrisquei e saí da Austrália com uma nova força para aproveitar, disfrutar, planear. E aí também me senti sozinha, mas simplesmente por ter voltado a sonhar e não o querer fazer sozinha.

O último ano não correu muito bem, apesar do novo fôlego do apuramento. Sempre a pensar que para a próxima seria melhor, que para a próxima estaríamos melhor umas com as outras, sempre a querer voltar a casa para o nosso reequilibro.

Até que te (re)encontrei.
Ajudaste me a relativizar, a querer continuar a lutar, a ter paciência. Apoias-te me sempre. Eras o meu pequeno segredo.

E agora, com alguma decepção final do nosso objectivo, tudo acabou. Não sei o que podia ter feito diferente para que tivesse corrido melhor. Aliás acho que as coisas nunca foram lineares assim. Erros fazemos todos, momentos há melhores que outros, e acho que dois anos de empenho, esforço e dedicação não se resumem a um resultado. Com este projecto, a aprendizagem e o que experienciei e ganhei interiormente ultrapassam qualquer resultado, e esse é o único balanço que posso fazer.

A vida não acabou aqui, e certamente que estará cheia de outros projectos e etapas.

Por agora, só sei que vais deixar  de ser um segredo e que vou finalmente viver-te, no presente.

Passa-me a mão no cabelo, entrelaça-te comigo.
Olhemos para a frente e vivamos.